Protocolo Multicultural – Cultura Chinesa: religiões, filosofias e superstições

Na China, ao longo dos séculos, três grandes correntes religiosas (que inicialmente teriam começado como correntes filosóficas) emergiram e se desenvolveram, contribuindo grandemente para o carácter da Cultura Chinesa: o Taoísmo, o Budismo e o Confucionismo. Apesar de cada uma destas religiões possuir características únicas, têm uma característica em comum que são as raízes baseadas no Confucionismo. Também se verifica que ao longo dos tempos algumas práticas passaram a ser partilhadas.

Taoísmo

O Taoísmo nasce da escrita do sábio Lao Tzu que enfatizava o papel central que a natureza assume na manutenção da harmonia do Universo, nomeadamente através da compreensão dos princípios yin e yang. De acordo com o Taoísmo, yin é o lado feminino da natureza: escuro, calmo, passivo e suave; yang o lado masculino: quente, brilhante, activo sólido. Tudo no Universo contém uma vertente yin e uma vertente yang que, quando coexistem em equilíbrio, mantêm a natureza em harmonia.

O Taoísmo, enquanto religião que se baseia na natureza, acredita que tudo no universo possui alma e os templos taoistas são dedicados a múltiplas divindades incluindo deuses da natureza, dragões, tigres e outros heróis míticos. A mais alta entidade taoista é o Imperador Jade.

Outra crença fundamental do Taoísmo é a aceitação da transitoriedade da vida, dado que tudo no Universo está permanentemente a fluir. Aceitar a mudança como a única constância da vida conduz a um estado de harmonia com a natureza. Os taoistas preocupam-se com a observação dos fenómenos da natureza e com o misterioso fluir do Universo o que gera, por um lado, a observação científica e, por outro, as manifestações artísticas (muitos dos mais famosos poetas e artistas chineses são praticantes desta religião). Também a medicina tradicional chinesa se baseia nesta filosofia (designadamente a acupunctura), bem como o feng-shui.

Budismo

O Budismo tem como princípio básico a crença de que o sofrimento humano surge em resultado de desejos terrenos, pelo que eliminados esses desejos se atinge a felicidade. Com as suas raízes no Hinduísmo, o Budismo chega à Cultura Chinesa aproximadamente no ano 50 AC. Siddharta Gautama, Buddha, era um Príncipe Indiano que abdicou da sua vida terrena em prol da busca da sabedoria e, após longos anos de meditação, transcende o plano terreno e torna-se “O Iluminado”.

Os Budistas acreditam na reincarnação: o karma de cada um é o resultado de acções em vidas passadas, o que determina que tipo de existência se viverá na vida seguinte. O objectivo primordial do Budismo é escapar ao ciclo infindável de morte/renascimento, o que pode ser conseguido através da prática da compaixão e atingindo um estado iluminado, ou seja, entrando no Nirvana (definido com um estágio de paz permanente onde existe total liberdade de todos os desejos).

Na China, o Budismo é a fé mais praticada, com cerca de 300 a 350 milhões de seguidores, crentes não só em Buddha mas também numa reincarnação feminina de Buddha, Guan Yin, deusa da misericórdia e da compaixão, que simboliza o modelo para muitos seguidores do Budismo.

Socialmente, a influência do Budismo na Cultura Chinesa manifesta-se através da actuação de ONG’s que apoiam população carenciada. O altruísmo, a bondade, a generosidade e a compaixão são características que o Budismo transferiu para a Sociedade Chinesa, claramente com um impacto positivo.

Confucionismo

O Confucionismo é um complexo sistema político, ético e filosófico, baseado nos ensinamentos de Confúcio que, até à actualidade, mantém uma profunda influência na sociedade chinesa, quer a nível do comportamento individual, quer em aspectos relacionados com a política e a educação. Enquanto religião, não detém particulares preocupações espirituais nem tem um representante oficial sendo, acima de tudo, um guia moral e um código de boas práticas. Os aspectos sobre os quais o Confucionismo continua a exercer as suas influências na sociedade chinesa são os seguintes:

 

– Uma abordagem hierárquica a todas as organizações.

– Um acentuado ênfase na educação/escolaridade.

– O foco na família como célula fundamental da sociedade em detrimento do ser individual.

 

Ordem e harmonia eram as máximas defendidas por Confúcio, que defensava igualmente que se cada um compreendesse qual o seu lugar na sociedade e aprendesse a ter um comportamento adequado contribuiria largamente para atingir a harmonia social. Neste âmbito, os Confucionistas identificam cinco tipos de relações sociais fundamentais:

 

– Subordinado/hierarquia.

– Mulher/marido.

– Filhos/pais.

– Irmãos mais novos/irmãos mais velhos.

– Amigos.

 

Nestas relações é esperada obediência e lealdade (do subordinado, da mulher, do filho, do irmão mais novo) em troca de benevolência (da hierarquia, do marido, dos pais, do irmão mais velho).

A influência das regras que regem estas relações na cultura chinesa não é despicienda: daqui advém a considerável reverência que os Chineses, de uma maneira geral, prestam a quem representa o poder. Mesmo que essa reverência não seja genuína, continua a ser importante mantê-la, como forma de preservar a harmonia social. Assim se compreende que frequentemente os Chineses actuem da forma como é suposto actuarem e não necessariamente de acordo com aquilo que sentem, o que dificulta claramente o entendimento e o relacionamento dos Ocidentais com esta cultura.

Outra importante influência é a da educação, favorecendo a aprendizagem/escolaridade em detrimento de privilégios aristocráticos hereditários, nomeadamente no acesso a determinadas posições. Ainda na actualidade, o sistema educacional chinês tem as suas raízes na filosofia Confucionista.

O foco na família como célula fundamental da sociedade em detrimento do ser individual, a terceira grande influência do Confucionismo sobre a cultura chinesa, é também o contrário do que é habitualmente defendido no Ocidente, onde o individualismo é encorajado. Na China a família é tudo e no conceito de família estão incluídos os membros já mortos.

A noção de família na China é abrangente, incluindo não só pais e filhos mas também avós, tios, primos. Normalmente os familiares vivem próximos pelo que as crianças e os mais idosos são habitualmente amparados dentro do seio familiar. O papel dos avós é fundamental. Nesta concepção de família, o sucesso de um é o sucesso de todos, mas o contrário também é aplicável – a vergonha de um é a vergonha de toda a família. É frequente na China que os negócios estejam concentrados na família, mesmo as grandes empresas.

Superstições

Durante o período Maoista (1949 a 1976) as práticas religiosas foram praticamente erradicadas da vida dos Chineses, tendo ressurgido após essa época.

Um aspecto fundamental da crença espiritual na cultura chinesa é a prática da adoração dos espíritos, de algumas divindades mas principalmente dos ancestrais, prática esta acompanhada dos respectivos rituais, sendo os mais comuns queimar incenso e fazer oferendas aos mortos.

A responsabilidade de venerar o espírito dos familiares já falecidos é da responsabilidade do filho mais velho, sem o qual esses espíritos ficam privados de receber as devidas oferendas que garantem a sua sobrevivência no além sendo, assim, condenados a uma “existência” eterna de fome e privação – daqui resulta a importância de ter um filho do sexo masculino, pois os pais apenas de raparigas estão condenados a serem “espíritos famintos”.

Grande parte dos Chineses são, igualmente, muito supersticiosos, principalmente os mais tradicionais. Alguns aspectos curiosos:

  •  A produção de artefactos religiosos é um negócio muito rentável.
  •  É perfeitamente comum consultar todo o tipo de “oráculos” (astrologia, leitura da mão, leitura da face) antes de acontecimentos importantes na vida, como por exemplo um casamento ou alterações na vida profissional.
  • Os templos na China têm uma atmosfera exuberante: os crentes queimam incenso, fazem oferendas aos deuses, convivem com familiares e amigos.
  • Os Chineses rezam por dinheiro e sucesso na vida académica e profissional, boa saúde, nascimento de um filho varão.
  • São profundamente crentes nas técnicas de feng shui (cuja tradução é vento e água), uma antiga arte chinesa que tem o objectivo de atingir a harmonia: a água que flui calmamente, serena a mente; montanhas atrás de casa garantem solidez; uma bola de cristal purifica o ar; as plantas que crescem propiciam o desenvolvimento; os peixes atraem a prosperidade.
  • O número 4, cuja sonoridade na língua chinesa se assemelha à da palavra morte, é considerado um número de azar.
  • Olhar para um cadáver traz má sorte: o espírito do morto pode atacar.
  • O sétimo mês lunar do calendário chinês (que corresponde, normalmente a fim de Julho, início de Agosto) é o mês dos fantasmas (algo semelhante ao “Halloween”) e consideram perigoso viajar nesta altura.
  • Consideram que estender a roupa à noite é arriscado na medida em que esta pode ser atacada por fantasmas.
  • Grande parte dos Chineses não sabe nadar ou tem medo do mar, residindo a razão no facto de que acreditam que os fantasmas habitam os mares.
  • Acreditam também que contar os degraus enquanto se sobe ou desce traz azar.

 

Cristina Fernandes