Protocolo Multicultural: Cultura Japonesa – a influência da filosofia Zen no comportamento

Defendo que a compreensão de alguns aspectos culturais – mesmo que, aparentemente, não relacionados com negociação – poderá revelar-se muito útil no relacionamento social e profissional com interlocutores Japoneses. Assim, deixo, abreviadamente, alguns conceitos da filosofia Zen e respectiva influência sobre o modo de negociar dos profissionais Japoneses.

Um

Este termo exprime um conceito importante na filosofia Zen: o vazio ou a não existência de si próprio, isto é, uma pessoa ou uma coisa não têm existência intrínseca, mas unicamente através da relação com os outros. Encontramos, aqui, uma das mais importantes razões da relevância do colectivo para os Japoneses , por oposição à nossa visão Ocidental, individualista, do mundo.

Kokoro-zukai

Esta expressão traduz um conceito de viver aproximando-se do outro, através do coração, o que justifica, por exemplo, a enorme necessidade de equilíbrio em todos os relacionamentos. Os profissionais Japoneses encaram esta harmonia como uma garantia de coesão do sistema.

Nemawashi

Concepção que traduz a necessidade de preservar o consenso e de procurar convencer todos os elementos do grupo e não apenas as pessoas chave num determinado contexto. É fundamental na comunicação negocial.

Kaizen

Esta é a noção de melhoria permanente de todos os processos, em todas as fases de produção. Nem todos os gestores Ocidentais saberão que os famosos processos de melhoria contínua têm, afinal, origem na filosofia Zen… Esta teoria defende que a melhoria num processo pode ser atingida quando um procedimento está devidamente implementado e sistematizado: the right process will produce the right results. Quando um modo de actuar está estabilizado, tornam-se visíveis as respectivas ineficiências e, consequentemente, gera-se a oportunidade de o melhorar, continuamente. Para que esta melhoria seja possível, é necessário que a organização tenha colaboradores com capacidade de construir a partir do passado e desenvolver conhecimento para o futuro, o que exige, entre outros aspectos,  um quadro de pessoal estável.

Kaizen é uma atitude e uma forma de raciocínio que prevê uma postura de auto-reflexão mas também de auto-crítica, atitude esta estruturada sobre uma real intenção de melhoria, que se enquadra perfeitamente na Cultura Oriental. Os Ocidentais encaram a crítica e a admissão de um erro como algo de negativo e revelador de fraqueza,  facilmente tendendo a culpar os outros. Ao contrário, um Oriental, entende como um grande sinal de força enfrentar as suas próprias fraquezas, assumir as responsabilidades e propor medidas de prevenção.

Assim, ao trabalhar com colegas Japoneses, os seguintes aspectos devem ser considerados:

  • O estilo de comunicação dos Japoneses é indirecto, o que pode causar estranheza e desconforto aos menos preparados.
  • Os Japoneses, normalmente, são relutantes à apresentação de informação negativa.
  • Regra geral, evitam o conflito e dão muitíssima importância ao conceito de perder a face.
  • Tendencialmente, comunicam de forma vaga, razão para a qual também contribui a estrutura da sua linguagem, que só se complementa e entende totalmente se associada a factores de comunicação não-verbal como, por exemplo, a postura corporal, o olhar, o tom de voz, a expressão facial.
  • Os Japoneses tendem a dar preferência às escolhas alheias, em detrimento das suas próprias preferências, sempre com o objectivo de evitar o conflito e situações embaraçantes para os demais.
  • O grande desafio dos Ocidentais face à Cultura Japonesa é entender o que não é dito e tirar as correctas ilações.
  • Os Japoneses cultivam o sexto sentido e dão grande importância à intuição.
  • O conceito de feedback é algo que os Americanos inventaram e os demais povos importaram, mas de difícil entendimento para os Japoneses, na medida em que não se sentem confortáveis a emitir opiniões e pareceres.
  • Dificilmente serão expressas críticas ou graves preocupações.
  • Nesta cultura, o silêncio é de ouro. Com frequência, a pessoa mais silenciosa durante uma reunião será aquela que verdadeiramente detém o poder de decisão.

 

Cristina Fernandes