Rússia: Europa, Ásia ou… Rússia?

A Federação Russa é o país com maior extensão territorial no mundo. Normalmente designada apenas por Rússia, estende-se desde a Europa até ao Norte da Ásia, fazendo fronteira com catorze Estados: Azerbaijão, Bielorrússia, China, Estónia, Finlândia, Geórgia, Cazaquistão, Coreia do Norte, Letónia, Lituânia, Mongólia, Noruega, Polónia e Ucrânia.

Com cerca de 142 milhões de habitantes, a população russa concentra-se, contudo, em cerca de um quinto do território, maioritariamente em zonas urbanas. As cidades mais populosas são Moscovo, São Petersburgo, Novosibirsk e Ecaterimburgo. O grupo étnico Russo abrange cerca de 80% da população do país, sendo os restantes 20% constituídos por minorias (aproximadamente cento e sessenta grupos étnicos). A densidade populacional russa é baixa, tendo em conta a dimensão territorial.

No âmbito dos BRICs, gera preocupações pela baixa taxa de demografia, pelo elevado índice de mortalidade, excessiva dependência de energia e matérias-primas, além das consequências da vulnerabilidade dos preços do petróleo e do gás natural, que frequentemente geram oscilações no equilíbrio da economia, como se sabe. Contudo, o seu potencial enquanto nação é incalculável.

Falam Russo, uma língua eslava, língua materna na Rússia, na Bielorrússia, na Ucrânia, no Cazaquistão, no Azerbaijão, no Quirguistão, na Moldávia e em diversos outros países que constituíam a antiga União Soviética. O Russo é uma das dez línguas mais populares na Internet. O alfabeto utilizado é o cirílico e a gramática reveste-se de enorme complexidade.

Algumas características culturais e de natureza protocolar:

  • O poder político Russo é encarado pelos estrangeiros como autocrata e as suas estruturas políticas e partidárias nem sempre são totalmente compreendidas. Crê-se, igualmente, que ainda persistem hábitos culturais e políticos provenientes do antigo regime soviético. O poder público não facilita totalmente a instalação de multinacionais estrangeiras no país.
  • Essa autocracia verifica-se igualmente em ambiente empresarial, sendo o modelo dominante dos líderes Russos. O processo de tomada de decisão é centralizado o que dificulta a negociação à distância e torna qualquer procedimento muito moroso. A delegação de poderes e tarefas ainda não é uma prática comum.
  • O crescimento da nação é entendido como necessário mas em consonância com valores do passado.
  • Consequência de décadas de elevados padrões de instrução em matemática e ciências, a educação académica é um dos pontos fortes na Rússia.
  • Os Russos são profundamente coletivistas e a família continua a ser a célula fundamental.
  • O consumidor Russo é sofisticado e não facilmente impressionável: no estrangeiro adquire marcas de prestígio e qualidade. Todas as grandes marcas ocidentais estão presentes nas grandes cidades russas, também. Existem hotéis e restaurantes com grandes níveis de qualidade e serviço irrepreensível.
  • Os Russos são muitíssimo orgulhosos do seu património cultural: arte, música, ballet, teatro, literatura, descobertas científicas. Estes serão sempre temas de conversa bem escolhidos. A Praça Vermelha em Moscovo e o Museu Hermitage em São Petersburgo são as “meninas dos olhos” dos Russos e, por si só, merecem uma visita ao país.
  • Os Russos, apesar da sua bravura e história militar são, normalmente, desconfiados face aos estrangeiros em geral e temem sofrer invasões territoriais (o que poderá “justificar-se” pelo facto de o país fazer fronteira com catorze outros países). Um exemplo banal: no quotidiano, ao circular num espaço comercial, é normal que um empregado “persiga” o potencial cliente.
  • Sabe-se que na presença de um Russo é de mau tom manter conversas sussurrando e que ter as mãos nos bolsos é um comportamento visto como grosseiro.
  • A presença visual (vestuário) é extraordinariamente importante para um homem de negócios Russo. Os Russos apreciam roupas de marca, acessórios caros (nomeadamente relógios), carros luxuosos… Pelo que terão dificuldade em aceitar negociar com alguém que se apresente de forma excessivamente modesta ou mal cuidada.
  • A pontualidade não é exatamente uma virtude detida por este povo. Porém, esperam pontualidade dos estrangeiros.
  • Os homens Russos cumprimentam-se com dois beijos no rosto. Contudo em ambiente profissional com pessoas pouco conhecidas prevalece o aperto de mão, naturalmente. O contacto visual direto é muito apreciado em ambiente negocial mas, por exemplo, na rua, as pessoas não se olham diretamente.
  • A utilização de títulos académicos e profissionais é muito importante e valorizada e é frequente que, em contexto mais formal, mesmo as pessoas que se relacionam diariamente se tratem pelo apelido e não pelo nome próprio.

 

Perceções de uma visitante:

  • Genericamente, os Russos sorriem muito pouco. O registo de comunicação reveste-se de grande frieza e distanciamento e, até, por vezes, de enorme rudeza. Mesmo em situações de atendimento, falam pouquíssimo, dizendo apenas o essencial, e nem sempre dentro do padrão dos bons modos.
  • Nem tudo – aliás, muito pouca informação -, está disponível em Inglês. Este pode ser, realmente, um fator que dificulte, e muito, a comunicação.
  • Todos os espaços públicos (ruas, museus, estações de metro, jardins, etc.) são extraordinariamente limpos. E é frequente que a qualquer hora do dia haja alguém a realizar serviços de limpeza. Os espaços são também bem iluminados e as flores são muito frequentes.
  • Para um visitante o rublo é a única moeda utilizada e permitida. Não é óbvio que espaços de comércio aceitem sempre cartões de débito e de crédito.
  • É muito comum que em espaços públicos – até, por exemplo, em bons restaurantes -, as casas de banho sejam mistas.
  • Nos restaurantes, o serviço pode chegar a ser bastante demorado e o nível de domínio de inglês dos profissionais de atendimento é muito rudimentar. Não é raro que um restaurante esteja aberto vinte e quatro horas sem interrupção.
  • A aquisição de bilhetes para entrada em monumentos é sempre precedida de enormes filas que, os Russos, não respeitam, podendo inclusive chegar a conflituar entre si. A compra prévia de bilhetes online nem sempre é possível.
  • São Petersburgo, nascida da vontade de Pedro, O Grande, em 1703, é uma cidade detentora de uma beleza ímpar, indescritivelmente monumental. Moscovo, nascida no Séc. XII, diferente, com a grandiosidade do Kremlin (“a fortaleza”), é uma cidade cosmopolita, que está a ser intensivamente restaurada, com um encanto enorme, que ganhará ainda maior visibilidade mediática, certamente, quando, dentro de um ano, acolher o Mundial de Futebol.
  • Conduzir na Rússia não é uma boa decisão para um estrangeiro. O trânsito é intenso, a sinalização e todo o tipo de informação está escrita quase exclusivamente em Russo, no alfabeto cirílico, e os Russos parecem não ser, propriamente, os mais cumpridores das regras de condução e dos limites de velocidade. O metro é uma excelente escolha, as estações são muito limpas e iluminadas e, algumas, em Moscovo, verdadeiros museus.

 

Levantar o véu da cultura russa é como abrir uma matryoshka… É importante não deter nem conceitos pré-definidos nem, sobretudo, preconceitos. Afinal, A Rússia não é Europa nem Ásia. É a Rússia, igual a si própria.

Cristina Fernandes