Ano Santo Compostelano 2021 – Ano de graça e de perdão

Texto publicado na edição nº 39 da revista Event Point

Por disposição Papal, o Ano Santo Compostelano (“Xacobeo”, em galego) celebra-se desde a Idade Média (Séc. XV), quando o dia do Apóstolo Santiago (25 de julho) coincide com um domingo (tendo sido o último em 2010 e sendo o próximo em 2027). No Jubileu Compostelano a Igreja concede indulgências especiais aos fiéis o que, naturalmente, atrai à Catedral de Santiago de Compostela peregrinos provenientes de todo o mundo. A celebração teve início em 31 de dezembro de 2020 e termina a 31 de dezembro de 2022, excecionalmente durando dois anos, por decisão do Santo Padre, devido à pandemia, algo que acontece pela segunda vez na história (tendo sido a anterior em 1937, durante a Guerra Civil Espanhola).

A Porta Santa da Catedral foi aberta pelo Núncio Apostólico, D. Bernardito Auza, em nome de Sua Santidade o Papa Francisco, que se fez presente através da mensagem enviada. A Catedral está aberta todo o ano, bem como a Porta Santa.

Para ganhar o Jubileu (isto é, alcançar a Indulgência Plenária) é necessário que os peregrinos (i) visitem o túmulo do Apóstolo na Catedral e rezem pelas intenções do Santo Padre; (ii) recebam os sacramentos da Penitência e da Comunhão (na Catedral, ou numa outra igreja da paróquia); (iii) por tradição, podem os peregrinos abraçar a imagem do Apóstolo e entrar pela Porta Santa.

A Catedral de Santiago de Compostela

Uma catedral é um templo religioso com um significado especial, por ser um espaço de referência teológica, sacramental e pastoral da Igreja diocesana. É a “sede” de cada diocese, onde o respetivo Bispo preside às celebrações, é o centro litúrgico da diocese.

O início da construção desta catedral românica data de 1075, no reinado de Afonso VI. As obras sofrem diversas vicissitudes até ganharem um novo fôlego em 1100, tendo os trabalhos de finalização iniciado em 1168 e a consagração ocorrido em 1211, com a presença de Afonso IX.

Mesmo tendo mantido a essência da estrutura medieval, a Catedral foi sofrendo alterações ao longo dos séculos, com a construção do Claustro, no Renascimento, e da capela maior, órgãos e fachada, no Barroco, entre outras nos séculos subsequentes. A fachada do Obradoiro, orientada a ocidente, é a fachada principal da Catedral de Santiago de Compostela. Na cabeceira da Catedral localizam-se a Porta Santa, a Porta Real e a Porta dos Abades.

A Porta Santa assume uma especial importância neste contexto do Ano Santo Compostelano. Com efeito, a sua abertura aconteceu numa celebração a 31 de dezembro de 2020, tendo ocorrido de seguida a projeção de um vídeo de boas-vindas a esta efeméride, na escadaria da Praça Quintana, e interpretação de uma música tradicional da Galiza. O Papa Francisco enviou uma mensagem para este ano jubilar convidando “para um caminho de conversão e de solidariedade com os próprios companheiros de viagem”, bem como “carinho e proximidade a todos aqueles que participam neste momento de graça para toda a Igreja e, em particular, para a Igreja em Espanha e na Europa”. Por sua vez, o Arcebispo de Santiago de Compostela, D. Julian Barrio, destacou o “ano de graça e de perdão” para todos os fiéis que possam participar. Este acontecimento teve ampla cobertura mediática.

O Apóstolo São Tiago

É um dos 12 discípulos de Jesus Cristo. Junto com Pedro e João, pertence ao grupo dos três discípulos privilegiados que foram admitidos por Jesus a participarem nos momentos mais importantes da sua vida. São Tiago, que é também conhecido como “São Tiago Maior” para ser distinguido de Tiago Menor, foi um dos primeiros Apóstolos martirizados, em Jerusalém. A tradição popular narra que o seu corpo foi levado por mar até à Galiza, tendo sido enterrado num bosque, local onde se construiu a sua Catedral.

A Igreja Compostelana, que surge como herdeira da missão do Apóstolo Santiago, assume como missão espalhar a palavra de Deus e introduzir os seus valores na cultura e em todas as estruturas sociais, recorrendo ao amor e ao serviço como principais instrumentos para o cumprimento desses desígnios.

Estrutura e noções de Protocolo na Igreja Católica Romana

A Igreja Católica Romana é uma estrutura complexamente hierarquizada, encabeçada pelo Santo Padre, reconhecido e respeitado universalmente como autoridade espiritual, mesmo por quem não professa a religião católica. O Papa é eleito, em conclave, pelo Colégio dos Cardeais. O Sumo Pontífice é, igualmente, Bispo de Roma e Chefe de Estado do Vaticano. As insígnias do Sucessor de Pedro são a tiara, o pálio, o báculo pastoral e o anel papal. Na hierarquia da Igreja, ao Papa segue-se o Colégio Cardinalício e os Cardeais. Imediatamente a seguir estão os representantes diplomáticos da Santa Sé (Núncios, Internúncios e Delegados Apostólicos), os Patriarcas, os Arcebispos e Bispos.

Um Bispo Diocesano é um verdadeiro sucessor e continuador da missão dos Apóstolos, investido de potestade legislativa, executiva e judicial. Ao cumprir 75 anos deve apresentar a renúncia ao Santo Padre, tal como em situação de doença grave ou de qualquer outra causa que diminua as suas capacidades. Recebe o tratamento protocolar de Excelência Reverendíssima.

Em Santiago de Compostela, o Arcebispo D. Julián Barrio, preside à Igreja Compostelana desde 1996, tendo sido nomeado pelo Papa João Paulo II. O Bispo Diocesano recebe a denominação de Arcebispo quando a sua diocese preside a uma província eclesiástica.

Quando um Bispo necessita de apoio no desempenho das funções que lhe estão atribuídas, a Santa Sé pode designar um Bispo Auxiliar, a seu pedido. Em Santiago de Compostela, Monsenhor Francisco José Prieto Fernández é Bispo Auxiliar desde abril de 2021.

As insígnias pontificais são os objetos distintivos do pontífice, ou seja, do Bispo. São o anel (antigo símbolo de poder, insígnia de fé e símbolo de união com a Igreja); a cruz peitoral (pendente ao pescoço, por um cordão); a mitra (usada sempre que nas celebrações se desloca ou aquando sentado, quando faz a homilia, quando abençoa ou quando caminha em procissão); o báculo (símbolo do ministério pastoral, usado apenas no seu território, salvo exceções); o pálio (concedido pelo Papa, é próprio dos Arcebispos e usado em celebrações litúrgicas solenes).

Fora do altar, as vestes episcopais caracterizam-se pela sotaina preta, faixa e solidéu de tom arroxeado.

Na atualidade, do ponto de vista protocolar, as relações entre os membros da Igreja Católica e do Estado não obedecem a uma normativa legal. Quer em Espanha, quer em Portugal, os dignatários eclesiásticos não são contemplados nem no Real Decreto 2099, nem na Lei 40/2006, respetivamente. Assim, em função do anfitrião, isto é, do caráter civil ou eclesiástico da cerimónia/celebração, seguem-se critérios diferentes e adequados a cada situação no que concerne a precedências e lugar a ocupar por estas entidades, mas que, no caso de cerimónias oficiais/institucionais/empresariais, deverão observar sempre a dignidade do estatuto das entidades religiosas presentes, também respeitando costumes locais, históricos e culturais, muitas vezes seculares.

Recorde-se que numa celebração litúrgica quem realmente preside é um representante do clero, celebrando no altar. Quando estão presentes altas individualidades, o espaço mais importante protocolarmente é o primeiro banco do lado esquerdo (de quem está de frente para o altar) de um corredor central (ao contrário do que sucede nas demais plateias).

Refira-se igualmente que, como em outros países, tanto em Espanha como em Portugal, o Decano do Corpo Diplomático é o Núncio Apostólico (em Espanha, Monsenhor Bernardito Cleopas Auza, e em Portugal Monsenhor Ivo Scapolo) que ocupa, portanto, no estado acreditador, o primeiro lugar entre os membros do Corpo Diplomático acreditado.

Uma alta entidade da Igreja Católica deve ser cumprimentada por um leigo com reverência, que se traduz numa inclinação de cabeça, acompanhando a saudação verbal. A ocorrer aperto de mão, a iniciativa deve partir sempre da entidade eclesiástica.

Por fim, mas não de menor importância, abordamos o comportamento e atitude que os fiéis devem assumir num templo religioso, destacando a discrição na atitude global, o silêncio, o respeito absoluto por celebrações que estejam a decorrer, conduta esta que deve ser assumida mesmo pelos não crentes.

Cristina Fernandes & Susana de Salazar Casanova