Protocolo e Etiqueta nos Tratamentos Verbais

A língua, acompanhando as evoluções sociais, vai sofrendo alterações, naturalmente. Um dos aspectos da comunicação verbal em língua Portuguesa que está directamente ligado com os temas de Protocolo e Etiqueta são as formas de tratamento.
Em língua Portuguesa existem inúmeras possibilidades para as formas de tratamento (o mesmo não sucedendo, por exemplo, na língua Inglesa). Contudo, a escolha não pode ser aleatória, pois optar por “tu”, “você” ou “senhor” está directamente relacionado com questões sensíveis e nem sempre lineares: hierarquia, estatuto, idade, género, relações de proximidade, entre outras.
Tradicionalmente, em Português de Portugal, o tratamento por “tu” deve reservar-se para pessoas com quem se tem uma clara e inequívoca proximidade (por exemplo, familiares, amigos, colegas de longa data ou, por outro lado, crianças e jovens, aqui determinado pelo factor idade).
Por outro lado, optar pela terceira pessoa já revela um certo distanciamento face ao “tu” (apesar de não atingir a formalidade do tratamento por “senhor”), provocado por qualquer um dos factores anteriormente mencionados, ou quaisquer outros. E, quanto ao “você”, a utilização do termo não está isenta de discordâncias. Se a umas pessoas a palavra “você” claramente expressa não choca, outras há, porém, que a consideram agressiva ou, até, rude, pelo que se alerta para que a forma de tratamento na terceira pessoa que é realmente delicada consiste na supressão do sujeito, com a utilização do verbo na terceira pessoa do singular: “Tem uma blusa muito bonita” (em vez de “Você tem uma blusa muito bonita”).
Quanto àquela que destas três formas é a maneira mais formal – senhor e senhora – vale a pena recordar que ao termo senhora se deve seguir a expressão “D.” (Dona); Uma mulher é “Senhora D. Maria Luísa Marques” e não “Senhora Maria Luísa Marques” (se o contexto o permitir, poderá ser só D. Maria Luísa ou tão só Maria Luísa, mas nunca Senhora Maria Luísa). Vem acontecendo, porém, nos últimos anos, que a expressão “D.” tem vindo a ser suprimida, especialmente na linguagem marcadamente comercial (e, aqui, refira-se a linguagem utilizada em ambiente de “call center”), tendo esta má prática sido rapidamente integrada na linguagem, chegando mesmo quem a usa a defender a sua correcção e, sobretudo, modernidade…
Das múltiplas possibilidades que a nossa língua nos proporciona, escolhamos a que entendermos apropriada simultaneamente ao contexto e à nossa atitude. Não esqueçamos, no entanto, que essa escolha vai definir o nosso registo de comunicação em termos de boa educação, respeito e adequação de atitude. Valores que para alguns, lamentavelmente, também vêm caindo em desuso…

Cristina Fernandes