Como vai o Protocolo? Bem, muito obrigado!

Nestes tempos tão conturbados e não desejados que estamos a viver e, acima de tudo, tão incertos, uma certeza temos, porém: o Protocolo não vai morrer.

Esta convicção não advém de um otimismo exacerbado nem, muito menos, da capacidade de prever o futuro. Esta certeza advém de um facto inquestionável: o homem precisa de comunicar para se manter vivo em sociedade, essa é a sua essência. Sempre assim foi e será.

E o que tem isto a ver com Protocolo? Pois bem, tudo. Entendemos Protocolo como um sistema normativo, aplicado em âmbito profissional e institucional, quer aos relacionamentos interpessoais, quer, sobretudo, à gestão de cerimónias e eventos, com o objetivo principal de transmitir uma mensagem de respeito pelos símbolos e pelo estatuto de indivíduos, de organizações, de estados. Através da utilização das técnicas de Protocolo comunicamos “quem é quem”. Em Protocolo a forma é fundamental.

Com a pandemia, o nosso mundo subitamente parou. As relações interpessoais em contexto profissional passaram a acontecer, predominantemente, em contexto digital. E, o Protocolo, com pragmatismo e a flexibilidade que lhe é inerente, adaptou-se, recorrendo ao seu conjunto de regras designado como netiqueta (regras que, aliás, já eram aplicáveis muito antes da pandemia) e ao conjunto de preceitos respeitantes à imagem pessoal aplicável em contexto de comunicação digital (também, claro, existentes sem relação direta com a intensificação do sistema de teletrabalho).

No que se refere às cerimónias e eventos, parece-nos claro, nesta altura, que nada de significativo mudou ou mudará na implementação da normativa protocolar: a legislação referente aos símbolos nacionais, a Lei das precedências do Protocolo do Estado Português, as leis orgânicas das entidades da administração pública, os organigramas empresariais, continuarão a ser aplicados e cumpridos. O que muda, tanto quanto para já nos é dado saber (distância social, etiqueta respiratória, normas de higiene, entre outros aspetos), não está diretamente relacionado com critérios protocolares.

O que todos sabemos é que os eventos e as cerimónias presenciais, nos seus múltiplos formatos, acontecem e, possivelmente, continuarão a acontecer, com menor frequência, com configurações diferentes, com um menor número de participantes, realidade esta que afeta, inquestionavelmente e muito, o setor, mas não propriamente a aplicação do Protocolo!

Em contexto digital, algumas cerimónias e eventos continuarão a precisar de Protocolo, nomeadamente os mais formais ou aqueles que acolherem altas autoridades e outras personalidades. Tal como sempre aconteceu, aliás, também no formato presencial.

Ao analisar a história e a evolução do Protocolo – exercício indispensável e muito útil aos que exercem esta profissão – verificamos que esta disciplina foi acompanhando com flexibilidade e bom senso o progresso civilizacional, tendo chegado, robusta, até aos dias de hoje, apesar de muitas vezes ter sido vaticinada a sua inutilidade e a sua morte. Não acreditamos em “velho Protocolo e em “novo Protocolo”, em “diferente” Protocolo para eventos digitais, híbridos, presenciais, acreditamos numa normativa protocolar que existe e tem que ser aplicada, com profissionalismo, sempre que se revelar necessária e útil!

Em nosso entender, o Protocolo vai continuar a acompanhar o percurso de personalidades, a presença de empresas, a comunicação de instituições, a diplomacia entre estados, cumprindo o seu maior objetivo (comunicar o poder), ajustando-se, moldando-se, deixando cair algumas práticas e implementando outras, recuando, permanecendo, avançando…temos, mesmo, esta certeza: a COVID-19 não vai matar o Protocolo!

Cristina Fernandes & Susana de Salazar Casanova

Artigo publicado na edição digital nº 35 da revista “Event Point”